Outro dia, conversando com uma amiga que não via há muito tempo, escutei:
“Eu não compro em brechó. Acho que as roupas podem vir com energia ruim.”
Na hora, fiquei em silêncio. Não porque concordasse ou discordasse, mas porque me fiquei pensativa: e se a gente trocasse “brechó” por “loja de shopping”? A energia da peça estaria garantida?
A verdade é que às vezes não paramos para pensar que uma roupa nova também carrega histórias e muitas vezes, histórias bem mais pesadas do que imaginamos:
exploração de mão de obra,
condições de trabalho precárias,
impactos ambientais severos,
até casos de trabalho escravo moderno.
Essa reflexão me levou de volta a um dos episódios mais marcantes e dolorosos da moda contemporânea: 24 de abril de 2013 em Bangladesh.
O edifício Rana Plaza amanheceu com rachaduras visíveis nas paredes. As lojas e bancos que ocupavam os andares inferiores fecharam. Mas, nos andares de cima, funcionavam fábricas que produziam para grandes marcas globais. E os trabalhadores em sua maioria mulheres foram obrigados a entrar, mesmo com medo, mesmo sabendo do risco.
Horas depois, o prédio desabou. Mais de 1.100 pessoas morreram. Mais de 2.500 ficaram feridas. Histórias de filhos que esperaram mães que não voltaram. De trabalhadores soterrados sob as mesmas peças que costuravam.
O mundo inteiro viu, foi um divisor de águas. Não era mais possível fingir que não sabíamos. A tragédia expôs de forma brutal a precariedade e o custo humano por trás de muitas das roupas que compramos.
Dali nasceram movimentos como o Fashion Revolution, que nos lembram de fazer uma pergunta simples, mas transformadora: Quem fez minhas roupas?
E, para mim, essa pergunta não é uma questão de culpa, é sobre consciência. Serve para nos lembrar que cada peça, nova ou usada, tem uma história que vai muito além da etiqueta.
O interesse por brechós e peças vintage está em plena ascensão.
O crescimento das buscas foi de 553% em relação à 2024.
E não é à toa. Brechós são verdadeiros tesouros para quem quer montar looks autorais, encontrar peças únicas e colaborar para um mundo mais responsável e consciente.
Além disso, não é só o consumidor independente que está de olho nesse movimento. As próprias marcas de luxo estão investindo pesado no mercado de revenda.
O consumidor atual e os brechós
Adoção crescente da moda de segunda mão
Nos EUA, 66% dos adultos compram roupas de segunda mão regularmente, com 28% da Geração Z fazendo isso semanalmente.
ThredUp Resale Report 2024
Mais de 80% dos consumidores entre 18 e 34 anos já vestiram roupas usadas, comparado a cerca de 50% na faixa dos 55 a 64 anos.
Statista
Globalmente, o mercado de moda usada deve chegar a US$ 367 bilhões até 2029.
GlobalData
Em 2024, o mercado global de moda de segunda mão alcançou US$ 190 bilhões, com projeção de chegar a US$ 521,5 bilhões até 2034.
Future Market Insights.
Prioridades do novo consumidor
40% da Geração Z busca roupas de segunda mão porque não encontra seu estilo em lojas tradicionais.
60% dos consumidores acreditam que a segunda mão oferece melhor custo-benefício, e muitos preferem comprar peças mais duráveis ao invés de descartáveis.
ThredUp Resale Report 2024
Dinâmicas e motivações além do preço
Para muitos, garimpar em um brechó é um momento de autocuidado 57% dizem que é como um passatempo, especialmente entre os jovens (70%).
ThredUp Resale Report
O mercado de revenda de alta costura também está em alta: 40% dos homens entre 18 e 34 anos afirmam que têm mais interesse em itens de luxo de segunda mão do que no ano anterior.
BoF Business of Fashion
O luxo também está nos brechós
Se antes revenda e luxo pareciam conceitos opostos, hoje andam juntos e de forma estratégica. Trago alguns exemplos disso:
Gucci: lançou o programa Gucci Pre-loved em parceria com a plataforma Vestiaire Collective, oferecendo peças selecionadas e autenticadas diretamente nas lojas e no e-commerce.
Burberry e Stella McCartney: fecharam parcerias com o The RealReal, oferecendo concierge exclusivo, eventos VIP e incentivos para a revenda dos produtos.
Kering (grupo que inclui Gucci e Alexander McQueen): investiu €178 milhões na Vestiaire Collective, adquirindo 5% de participação um movimento que reforça o interesse do setor na moda circular e sustentável.
O mercado de segunda mão de luxo não é só uma questão de sustentabilidade e imagem; também é negócio. Ele representa um reposicionamento inteligente, agregando valor, exclusividade e narrativa às peças.
O novo consumidor
O perfil de quem consome moda está mudando, as novas gerações buscam coerência entre discurso e prática das marcas, querem produtos com história, autenticidade e propósito, não apenas novidades descartáveis.
Isso não significa que todos vão parar de comprar roupas novas e nem é essa a questão, o ponto é que cada vez mais pessoas estão entendendo que comprar é também um ato cultural e precisa ser responsável, com impacto real na forma como a indústria se comporta.
Uma escolha livre, mas consciente
Obviamente não estou aqui para dizer onde ou como você deve comprar suas roupas. Mas, cada vez mais, sinto a responsabilidade de contribuir para a discussão sobre o futuro da moda. Porque seja um vestido novo do shopping ou um blazer garimpado em um brechó, cada peça carrega histórias, valores e impactos.
E entender isso é um passo importante para construirmos, juntos, uma indústria mais consciente e um mundo melhor para as próximas gerações.



